Entrevista do Boletim da Ordem dos Advogados ao cineasta Luís Filipe Rocha, em15-03-2004

UM CINEASTA JUSTO

Licenciou-se em Direito. Estudante ainda, ao ver nos tribunais um “mau teatro” de rituais lamentáveis, optou pelo bom Teatro. Esteve no grupo cénico de Direito. Prosseguiu como cineasta. Ele é um “anarquista humanista”. Fiel a si próprio, escreveu “Camarate” como uma reflexão sobre a justiça.

 

BOA: A primeira e quase óbvia pergunta é porque é que um licenciado em Direito vai fazer praticamente nenhum Direito e opta antes pelo cinema? O que é que se passou, para que isso fosse possível?
Luís Filipe Rocha:
Vamos começar um bocadinho antes. Porque como todos nós, os que podíamos escolher um curso superior, tive de o fazer por altura dos quinze anos. Eu escolhi Direito, em primeiro lugar, porque queria sair do sítio onde estava, o Colégio Militar; em segundo lugar, porque queria enveredar pelas letras e não pelas ciências, dado o fascínio que me despertavam a História e a Literatura; e, finalmente, porque aos 15 anos a Justiça era para mim um universo atraente e fascinante, a defesa dos fracos, dos oprimidos, dos justos...

 

BOA: Como é que se fica quando se sai do Colégio Militar? Fica-se diferente dos outros?
LFR:
Fica-se, sobretudo se logo a seguir não houver possibilidade de se fazer uma antítese em relação à tese que é a educação militar. O Colégio Militar naquela altura era uma instituição regida pelo militarismo, que eu considero uma das ideologias mais repelentes que existe ao cimo da terra - e que é consumível e utilizável por todas as ideologias - baseada na hierarquia, na prepotência, no autoritarismo, na obediência, no machismo, na guerra. Ao militarismo juntava-se, nos anos 60, o fascismo, suportado sempre pelos militares, e a guerra colonial. Tu no Colégio eras formado como uma espécie de elite de combate. Daí ou continuavas a caminho do poder, da guerra, da prepotência, da dominação, ou então, no meu caso foi assim, tinhas a sorte de fazer a antítese, que era o ires para a Universidade, para a Associação de Estudantes, para o grupo cénico de Direito, e começavas a combater o fascismo, a partir de pontos de vista antinómicos, na altura os marxistas.

BOA: Mas entra-se assim pelo Cénico de Direito a dentro?
LFR:
Não. Eu fui para a Faculdade porque queria ser advogado, queria entrar e participar do mundo idealizado de justiça, ingénuo, muito feito pelas leituras do Perry Mason e pelos sonhos juvenis de humanidade e justiça. Mas quando entro para a Faculdade começo a conhecer uma perspectiva cultural, histórica, ideológica, completamente distinta daquela que trazíamos do ensino oficial, entro num outro sonho, o empenhamento na Cultura, pelas narrativas e pela literatura.

No segundo ano, por minha alta recriação, e desejando aproximar-me à “realidade” da Justiça, vou assistir a julgamentos no Tribunal da Boa Hora. E dei-me conta, em pleno «décor» do tribunal, do ar eminentemente teatral, e de mau teatro!, de jogo, de mau jogo!, do lado eminentemente injusto, do que se passava nos tribunais. Eram ritos autoritários, simbolizando estatutos de autoridade, de arrogância, de Poder, que não se coadunavam com a minha forma de pensar e de sentir.
Percebi que a ideia de Justiça que eu idealizara não existia e que as leis eram feitas por homens que simbolizavam na sua forma de pensar e de legislar interesses muito concretos; não havia nenhuma transcendência na criação das leis. Eram puras formas de prossecução de interesses de grupos.

A desilusão foi tão grande que percebi que nunca seria capaz de fazer Direito. Foi o único ano, em quase vinte anos de estudo, em que chumbei.

 

BOA: Será por isso que as personagens da justiça nos seus filmes, como em «Camarate», são sempre figuras limitadas, situadas, cercadas de pressões, de contingências, todas num turbilhão de interesses, tudo num discurso pessimista e desesperado?
LFR:
Eu acho que o mundo da justiça é um mundo muito fechado e, sobretudo, um mundo onde há pouca gente livre. Mesmo os advogados que são ou deveriam ser as pessoas mais livres no contexto social em que devemos compatibilizar a nossa liberdade com a liberdade alheia, mesmo esses não o são. A pressão corporativa e do politicamente correcto é permanente e condicionante. É uma pressão intimidatória e autoritária que as corporações exercem sobre os seus membros, em que são raros os que têm a coragem de remar contra a maré. Hoje uma das coisas que me preocupa no mundo da justiça é a mediocridade, a incultura, e sobretudo a completa ausência de vida vivida das magistraturas. São pessoas que têm diariamente nas mãos o destino de outras pessoas, podendo aplicar-lhes a pena mais sinistra que existe, depois da pena de morte, que é a privação liberdade, e que não estão humana e culturalmente preparadas para exercer justamente o poder que detêm.

 

BOA: Seria o Luís Filipe Rocha capaz de dizer isso num auditório onde estivessem juristas, advogados, procuradores, magistrados...?
LFR: Com certeza, só não o disse porque nunca fui convidado para o fazer. Foi isso que me levou a fazer um filme como «Camarate». E teria gostado muito de o debater com magistrados e procuradores. A Justiça é um dos pilares da democracia...

BOA: Mas no entanto quem hoje fala assim também esteve lá, também foi magistrado. Como é que isso aconteceu? Não deixou marcas?
LFR:
Não. Deixou uma imagem grata de menino e moço ter sido magistrado. Quando acabei o curso de Direito, em Janeiro de 1972, tive um momento de grande espanto e perplexidade, porque nunca tinha pensado que um dia acabaria o curso. Tinha sido aluno voluntário, dedicara-me de alma e coração ao teatro. Já que a Justiça era mau teatro, eu procurava fazer do bom...
Eu sabia que não iria fazer o serviço militar. Não era a guerra, matéria sobre a qual nunca tivemos, a nossa geração, um pensamento colectivo, antes sempre agimos com opções individuais: para uns, era mais cómodo fazer a guerra, para outros, era mais cómodo sair de Portugal. A questão para mim não era a guerra, era o voltar para o serviço militar, ao qual eu já tinha dado seis anos da minha vida.
Então descobri, através de colegas nossos, que havia a possibilidade de nos oferecermos como conservadores dos registos no vasto espaço do então Império Colonial Português. E eu, que sempre tive uma enorme ânsia de viajar, ofereci-me para Timor, para Macau e acabei na Ilha de Moçambique. E lá desembarquei com uma mala cheia de livros e outra cheia de discos. Esperava uma vida pacata.

Só que o presidente da Relação de então, o Dr. Valadas Preto entendeu nomear-me juiz, em substituição legal. Não imaginava que aquela criatura de cabelos pelos ombros, que estava a nomear, fosse um homem de esquerda, que de Direito sabia pouco e que tinha motivos e causas de vida tão afastados dos tribunais...
Enfim, durou um ano, de conflitos constantes com os poderes político e militar, mas nunca com o Dr. Valadas Preto, de quem guardo uma memória calorosa. Em Maio de 1973 fui aconselhado a sair de Moçambique, a regressar a Portugal, porque deveria estar muito cansado e doente...

 

BOA: E daí para o Brasil?
LFR:
Sim onde estive a fazer teatro. Regresso a Portugal com o 25 de Abril.

 

BOA: E nunca mais Direito nem um filme sobre a justiça, excepto «Camarate». Porquê?
LFR:
Acho que o filme, que aparentemente nasceu em 1995 com a intuição que nesse ano tive da crise na Justiça que hoje está totalmente à vista, teve a ver afinal com a desilusão de que falei.

 

BOA: Mas «Camarate» visto hoje, parece ter sido feito ontem, tal é a sua actualidade...
LFR:
Sim. Em 1995, entre o meu filme «Sinais de fogo» e o meu filme «Adeus pai», eu comecei a escrever um filme cujo título era «O Grande Frio», que seria um filme sobre a grande crise na justiça que eu na altura intuí estar a desenhar-se. Era uma reflexão sobre a justiça vinte anos depois do 25 de Abril. E foi durante a pesquisa para esse filme que fiquei fascinado por dois processos, o de «Camarate» e o do «Padre Frederico». São duas faces da mesma moeda. Optei pelo primeiro porque acho que não se pode fazer, hoje, em Portugal, livremente, um filme sobre o caso do padre Frederico. O meu filme não é sobre «Camarate» é um filme sobre a justiça. Quando o revi há pouco fiquei triste ao verificar quão actual ele é ao retratar a grande crise que a justiça continua a atravessar.

 

BOA: De que crise se fala?
LFR:
A de um mundo que se foi progressivamente fechando à cultura e à vida, aos outros seres humanos que eles, os magistrados, vêem como sendo seres perversos, sujeitos às perversões mais hediondas, como se eles próprios fossem seres assepticamente preparados ou geneticamente clonados para permanecerem imunes a essas perversões e tentações.
Depois, a progressiva decadência a que se começou a assistir na classe política, em que progressivamente os mais capazes se foram afastando e os mais medíocres e impreparados foram ocupando os lugares vagos. A pouco e pouco a tentação de uma «República de Juízes» foi-se insinuando, ou seja a propensão dessa corporação capsulada e distante para se assumir como reserva moral da Nação, no meio deste mundo de bandalheira e de corrupção.

De tudo isso o mais inquietante é o desmesurado poder que vejo ter o ministério público. Já houve quem o comparasse ao da PIDE. Eu sinto-o mais como uma forte pulsão inquisitorial, de controlo social, ideológico e moral sobre a sociedade. Um sonho utópico de purificação que é uma das géneses do totalitarismo.

 

BOA: Fala quem faz filmes que são sempre narrativas no limiar do incómodo, situações que ferem sempre quem está em situação de poder, que geram a agonia existencial de todos os arregimentados...
LFR:
Porque um dos temas que eu recorrentemente abordo é a relação entre o ser humano e o poder, na qual dramaticamente se entrechocam as questões mais lancinantes e mais interessantes. Sou um anarquista humanista. Tenho uma imensa dificuldade em lidar com o poder. Hoje, uma parte do poder real está no Ministério Público, o poder de investigar sem passar grande cavaco a ninguém, o poder de seguir, de escutar, de espiar, de prender, de perseguir...
Os meus filmes são, afinal, filmes sobre o poder. O «Adeus Pai» ou «A passagem da noite» são, por exemplo, sobre o poder dos pais, dos filhos, dos homens e das mulheres, sobre as relações de amor e de dominação. E o que está também sempre presente nos meus filmes, como forma de contrapoder, é a fidelidade a nós próprios. Das poucas coisas de que me orgulho foi o de ter sido ao longo da vida minuciosamente fiel a mim próprio.

 

BOA: Um cineasta faz o filme que quer?
LFR:
Eu sempre fiz os filmes que quis, porque sempre procurei fazer os filmes que era possível fazerem-se. Conheço as limitações da indústria cinematográfica nacional. É uma profissão de altíssimo risco, com meios muito limitados. Fiz um dos filmes mais caros da história do cinema português, que custou pouco mais do que meio milhão de contos, o «Amor e Dedinhos de Pé» e fiz alguns dos filmes de mais baixo orçamento do cinema português, como «A Fuga», «Cerromaior», «Sinais de Vida»», o próprio «Adeus Pai» ou a «A Passagem da Noite». Privilegiei sempre o desempenho profissional sobre o talento. Cumpri prazos, orçamentos e os planos de trabalho.

 

BOA: A cinematografia do Luís Filipe Rocha é a de uma narrativa não declamada, fácil de seguir, ao contrário do estilo enfático, empolgado, nesse sentido teatral, da linguagem intelectualizada muito típica de algum cinema português...
LFR:
Eu acho que o cinema é uma arte narrativa. Exige uma boa história, que se “veja” bem. Dou uma enorme importância à escrita do guião. Sou muito exigente. Sou muito crítico do meu trabalho, mais do que os críticos que de mim mal dizem. Sou o primeiro espectador dos meus próprios filmes. Descubro muitas vezes coisas que nem me tinha dado conta de que estavam lá. Às vezes são surpresas, quando, por exemplo, num festival juvenil do Havre, em que recebi o prémio do público, um espectador me perguntou se eu, ao ter posto no argumento o jovem do meu filme a escrever aquela frase do Bach «Deus meu, faz com que eu não perca nunca a alegria que há em mim», não teria evidenciado ser afinal, contra o que dizia, um crente religioso...

 

BOA: Mas tudo o que fica dito, digamos outra vez, por exemplo em «Camarate», não é a arrogância intelectual de querer julgar quem julgou?
LFR:
Talvez. Mas o que eu descobri foi uma autêntica batalha campal entre o poder político e o poder judicial. E foi exactamente isso, toda a gente a querer controlar toda a gente, que eu relatei no filme. Por outro lado é aquele esclarecimento mínimo a que todos temos direito num Estado de Direito que eu vi ser-nos roubado no processo de Camarate.

BOA: Mas não há o risco de que um dia, para o país, a realidade de Camarate seja não a dos processos judiciais que nunca ninguém vai ler, nunca a dos livros que poucos irão estudar, mas sim a visão do Luís Filipe Rocha, tal como a morte do Kennedy seja o modo como o Oliver Stone a contou no seu filme? Não há o risco de o cinema estar a criar o real?
LFR:
Não. Eu tive o cuidado de não fazer aquilo que o Oliver Stone fez. O filme dele que é um dos mais prodigiosamente bem feitos do ponto de vista cinematográfico é, do ponto de vista intelectual e histórico, um dos mais desonestos que eu já vi. Tentei fazer o contrário. Quis ser rigoroso, escrupuloso, transparente e exaustivo em relação aos factos. Não tenho medo que a história possa ser contada assim...

 

BOA: ... que o filme possa ser como que um documentário...
LFR:
Sim. O que lá está são os factos e as várias opiniões. Fiz uma investigação de mais de um ano, li milhares de páginas, falei com dezenas de pessoas. Contei o que vi.